Não vou dizer que não mereci. A vida é assim, mais perco que ganho
por querer ganhar sempre. Enquanto os dados rolam na vida, perco todas
as apostas, tudo que um dia fui e, de certa forma, mato meu passado; só
para revivê-lo com o saudosismo dos bons dias deitado na grama e quem
saber te escrever em versos.
O futuro não me pertence,
assim como o passado não faz mais parte de mim - ainda que eu lembre
muito mais do que projete minhas ambições agora; e nesse momento,
pensando em você e nos vinte e quatro
anos e alguns dias de desgraça que
se fecha em minha vida, fumo tudo o que encontro na frente e tento
encontrar a razão.
Cobras, cobras criadas no meu
próprio quintal, que um dia abracei e beijei, jurei amizade e amor
eterno e hoje me mordem os calcanhares, destilando toda a maldade que eu
fiz por merecer. Ou não, ou talvez não saiba.
Se a
culpa é minha, não me cabe saber ou pensar agora, e não me cabe
encontrar saída alguma; o papel molha com tudo que derramo em vômito e
lágrimas e espero que de alguma forma o inferno exista e seja tão quente
ou tão frio que te perturbe por gerações.
O veneno se
espalha lentamente sobre as artérias, e cada vez tudo fica mais nublado e
confuso. Alívio, raiva, é tudo a mesma coisa, só depende do que
queremos sentir e eu quero sentir minhas mãos em volta do seu pescoço,
numa forma de me livrar disso tudo que corrói por dentro.
A
gente nunca espera receber a pancada de onde ela realmente vem. Devo
merecer, mas é apenas o início da manhã e os deveres dessa vida fatídica
que eu levo me impedem de me libertar e esquecer; talvez eu deva ir.
Talvez o silêncio doa mais.
Eu devia saber, afinal
parte de tudo isso é ou já foi parte de mim. Quem sabe, eu deixei
morrer… Quem sabe foi apenas a ocasião - não sei.
Só
espero que isso tudo apodreça e caia, antes que o peito pare de bater,
antes que o veneno me contamine e eu, por fim, vire uma cobra também.
A decepção faz o amargo.